Bruno Betelli: O dilema do Balanço e o Futebol

A analogia que faço entre este cenário e o Futebol é a seguinte: ninguém sabe expressar o que quer.

por BRUNO BETELLI

Quem trabalha com desenvolvimento de novos produtos ou projetos, especialmente em equipes, e para clientes diferentes vai se identificar mais com o dilema descrito na imagem abaixo. Mas acredito que todos vão entender a mensagem chave.

A analogia que faço entre este cenário e o Futebol é a seguinte:

Ninguém sabe expressar o que quer.

Talvez nem saiba o que quer, de fato, ou não queria demonstrar seus verdadeiros interesses que permanecem ocultos.

Uma tragédia e o grande problema do Futebol Brasileiro.

ERROS EM TODOS OS LADOS
E o que ocorre é uma sucessão de desencontros de ideias, de pessoas e falhas grotescas de planejamento, alinhamento e, principalmente, de comunicação e processos de trabalho.

Diretoria não sabe expressar e mostrar com clareza o que quer. O que pode ou não no clube. O que a cultura permite ou não. O que é ser do clube…

O treinador fica com medo de perder o emprego. Sabe que é alugado por alguns jogos. Alguns mais outros menos. Alguns raros fazem aniversário de 1 ano. A maioria é treinador de aluguel.

Nesse contexto de extrema incerteza e insegurança o treinador chega e tenta conhecer o elenco, as vocações táticas, as valências físicas, a qualidade técnica e por aí vai. O calendário é apertado e administrar lesões, cansaço e covid atrapalha qualquer time.

DESAFIO COGNITIVO
Depois há o desafio cognitivo.

O treinador fala A e o jogador entende A+B que conversa com a dupla do setor ou o trio do setor que acaba mudando pra A+B+C e ninguém tem clareza do que precisa fazer de verdade.

Em outros casos o treinador não sabe explicar e pensa A, mas fala A+ e o jogador acaba se confundindo. Ou muda tanto o sistema de jogo, além da formação pelos desfalques que não há padrão nenhum de jogo.

Depois o jogador treina de um jeito, mas como muitos são bem jovens, na hora H, no jogo mesmo, o cérebro automático prevalece e ele só faz o que, de fato, está automatizado. Automatizar movimentos, gestos técnicos e posicionamentos leva tempo.

DESAFIO DO EGO
Além do desafio cognitivo e da comunicação, há também o desafio do ego.

O ego dos jogadores e de todos no Futebol é muito grande. Se um não joga o agente já posta reclamando e a torcida já critica e a imprensa normalmente passa a mão na cabeça do jogador. Fica muito na crítica de dirigentes e treinadores, quando quem entra em campo mesmo é o jogador.

Enfim, em meio a tudo isso, o time oscila. Quem tem elenco mais fraco oscila mais e mais pra baixo. Quem tem melhores jogadores se recupera na reta final e chega no G4. E ponto final. No fim, não adianta. A bola não entra por acaso.

PASSO A PASSO
E abaixo um detalhamento maior dos passos do dilema que vive o Futebol da Série B ainda liderado por poucos profissionais e muitos amadores.

Detalhamento — Passo 1

Os dirigentes (profissionais e amadores) conversam para tentar entrar num consenso a respeito da identidade de Futebol do Clube. Quem somos no Futebol hoje? O que fazemos? Como fazemos? Pra onde queremos ir? Onde queremos chegar?

Traçam um Futuro pro Clube.

Definem a maneira de jogar, a visão de Futebol que influencia nas características desejadas pro elenco e para cada posição.

Com isso definido entram nas outras partes do planejamento. Financeiro, produtos, ofertas, pessoas e processos. O BSC.

Mas vamos focar aqui no Depto de Futebol.

Passo 2

Feito isso é hora de escolher a peça chave. A peça que influencia de 20 a 40% das suas chances de sucesso. Estou falando do treinador e sua comissão técnica.

Defini-se o perfil técnico e de liderança do treinador.

Passo 3

Sabendo o que quer, os dirigentes abrem a vaga e começam a busca por bons candidatos. E aí pergunto: quem faz isso no Clube? Que pessoas no Futebol têm competência pra executar esse processo de recrutamento e seleção?

Se fosse uma empresa, a decisão sobre essa contratação seria analisada por, pelo menos 6 critérios:

1. Formação.

2. Experiência (histórico).

3. Capacidades comprovadas.

4. Habilidades comprovadas.

5. Atitudes (comportamento).

6. E o potencial de evolução.

Você pontua e filtra a lista pra 2 ou 3 nomes no máximo.

Conversa com perguntas estratégicas e busca comprovar hipóteses formadas para saber se o treinador, de fato, pensa como você imagina e quer que ele pense. E trabalha como você imagina e quer que ele trabalhe.

Feito isso você encontra o candidato mais adequado. Que melhor se encaixa no perfil.

Passo 4

Com o treinador contratado, os dirigentes o recebem e conversam pra explicar com mais detalhe o funcionamento da casa e repassar os desafios, objetivos e metas.

Explicam como é o Futebol do clube. A convicção de Futebol, o DNA, contam histórias e exemplificam o “jeito” especial do time se comportar dentro e fora do campo.

“Amigo, aqui é assim”!

“As regras aqui são essas”.

“Isso pode e isso não pode”.

"É isso que nós queremos de você”.

Entendeu?

Passo 5

O encontro com os jogadores e início do trabalho.

Nesse momento o treinador começa um relacionamento que precisa ser baseado em bons valores como: confiança, respeito, integridade e amizade, por exemplo.

O bom treinador busca liderar e integrar ao grupo.

Começa expondo seus princípios, seu jeito de pensar, de trabalhar e os objetivos que o grupo tem pra ano.

Até agora, nos 4 passos anteriores, há muito espaço pra falha de comunicação. De entendimento e de alinhamento.

RELAÇÃO COM JOGADORES
Mas a partir do início da relação com os jogadores, esse problema pode se multiplicar por 35 até 40.

Além disso podem começar os conflitos entre os jogadores. Entre alguns jogadores e o técnico. Entre a comissão técnica. E você já entendeu. Muita gente junta é problema se não for muito bem liderada e administrada.

A dura relação entre técnicos e jogadores
A dura relação entre técnicos e jogadores

O treinador precisa exercer com energia, mas também com naturalidade sua liderança.

Precisa lidar com os conflitos através de uma eficiente comunicação verbal e não verbal. Abusar da transparência e, principalmente, da coerência entre discurso e ações. Entre convicção e ações.

O problema é que poucos fazem isso com maestria. A verdade é que a maioria se perde no meio do caminho.

Ou cobra demais os jogadores ou de menos. Treina demais ou de menos. Corrige demais ou….e por aí vai. O ponto é que o “FIT”, o encaixe é difícil de conquistar.

E leva tempo!!!

SEM TROCA DE TÉCNICO
Não adianta querer contratar 9 treinadores pra ter um título em 1 mês. Assim como não adiantam 9 mulheres pra ter um filho e um mês.

E outra coisa, no Futebol dirigentes, imprensa e torcida acham que se o treinador não deu certo no início com 10, 20 jogos, não vai dar certo nunca.

O vitorioso chega e encontra as vitórias.

Brigatti: injustiçado na Ponte
Brigatti: injustiçado na Ponte

Isso pode ser verdade sim, mas é preciso ter convicções claras para poder identificar quando houve erro na contratação. O resultado é consequência de variáveis controláveis e incontroláveis. O adversário também entra em campo. A famosa frase:

“O Futebol é uma caixinha de surpresas”.

É a natureza do jogo. Deste Esporte que move o mundo.

Sem falar das contratações “tapa buraco”. Pra passar o tempo, para atravessar uma fase ou ganhar tempo de conseguir outro nome desejado.

BENEFÍCIO PRÓPRIO
O grande problema é que dirigentes alugam o Futebol (Clubes) pra benefício próprio, e esses alugam treinadores por jogo. E quem vive de galho em galho nunca cria raiz e não constrói nada sobre a Rocha.

E isso torna o nosso Futebol Brasileiro, num samba enredo lindo com potencial de nota 10, em barulho de bumbos descoordenados.

Há esperança? Claro. Sempre.

Por virtude ou acaso não sei, mas novos trabalhos de qualidade vem surgindo.

Maurício Barbieri: no caminho certo
Maurício Barbieri: no caminho certo

BONS EXEMPLOS
Pra falar do mais recente e próximo, os trabalhos de Barbieri no RB Bragantino e de Conceição

no Guarani de Campinas demonstram que há dirigentes tentando acertar.

E que os novos podem fazer diferente e melhor.

Felipe Conceição passou por boas “escolas” modernas de Futebol como o RB Bragantino e o América Mineiro.

Barbieri fez carreira até o Flamengo e agora no RB vêm demonstrando outras facetas do seu potencial. Está levando seu time ao máximo. Extraindo tudo que pode de um elenco equilibrado, com bons, mas escassos valores individuais, a herança característica da Série B de onde veio e não quer de jeito nenhum voltar.

CUIDADO FUTEBOL BRASILEIRO
Pra fechar, cuidado Futebol Brasileiro.

Há anos você vem perdendo seus melhores jogadores ainda meninos pro exterior.

ODAIR FOI PRO MUNDO ÁRABE
ODAIR FOI PRO MUNDO ÁRABE

Agora os bons técnicos também não ficam mais. Odair Hellmann é o mais recente a se mandar.

E com isso, a qualidade do Futebol segue limitada pelo baixo desempenho econômico.

Esse é o ciclo vicioso e destrutivo que vive a bola verde amarela.

Nosso Futebol precisa passar por uma disrupção estrutural urgente se quiser reencontrar os caminhos do crescimento, da ordem e do progresso.

BRUNO BETELLI
Bacharel em Esporte pela EEFE-USP . Na vida profissional começou no Tênis, com 4 anos no marketing da CBT. Já organizou torneios profissionais e internacionais de 2009 a 2012. Depois passou rapidamente pela Koch Tavares, em seguida foi contratado pela BRP, multinacional canadense do segmento de P
Veja perfil completo
Veja todos